Home Data de criação : 08/06/03 Última atualização : 10/01/12 19:22 / 22 Artigos publicados

UM SIMPLES OLHAR....  escrito em terça 12 janeiro 2010 19:22

O despertador toca....você abre um olho....abre o outro....ameaça mais um cochilo, depois pensa na vida. Normalmente este “ pensar na vida”, quando se refere ás mulheres, significa: que roupa eu vou por? Como esta decisão pode demorar algum tempo, melhor é ir tomando banho enquanto isso. Como um ser desprovido de ossos, você escorre pela cama e se arrasta até o banheiro. O Ministério da Saúde adverte: não se olhe de repente no espelho ao acordar, as seqüelas poderão ser irreparáveis. O banho é por obrigação.....lava o pescoço, atrás da orelha ( isso já é trauma de infância), o pé, a .....o .......pronto! Tá bom demais! Aí vem aquele momento de longa e interminável meditação em frente ao armário. Olha, olha,olha...e nada. No fim pega a primeira coisa que vê na frente. No carro, com o cérebro ainda entorpecido, qualquer noticiário sanguinolento serve, afinal voce nem está ouvindo direito. O dia se arrasta entre um suspiro e outro, telefonemas enfadonhos e minutas arquivadas. De noite, em casa, nada mais resta a não ser assistir pela vigésima vez A Lagoa Azul, tomar um calmante e ir dormir. E no dia seguinte....tudo igual....a não ser pelo fato de um olhar cruzar com o seu no meio do corredor. A gente chega a duvidar; será que foi isso mesmo? Foi comigo? Melhor ficar na minha....Pelo sim, pelo não, melhor eu ir beber água mais vezes....aí sim! Se acontecer de novo....E dito e feito! No momento em que você está pegando um café, do seu lado uma voz lhe dá uma boa tarde. E de novo os olhares se encontram. Ah! Que coisa maravilhosa é isso! Lembra daquele sono insuportável que lhe acomete depois do almoço? Pois ele acabou de sumir.....  Segundo passo é dar uma corridinha no banheiro e conferir o conjunto. Até então o cabelo mais parecia um sheep dog, agora tem que estar perfeito....tira a remela....confere o bafo....( argh...ânsia...), ajeita, puxa, estica, encolhe ( Caramba! De onde apareceu esta ruga?). O dia cria cores em néon, qualquer bobagem é motivos de risos, só falta mesmo uma trilha sonora, numa linha Michael Bubblé. O som do carro agora é no último, só superado pela sua interpretação esganiçada.....mas não tem importância, você está pouco se lixando para quem torcer o nariz, afinal, não é todo dia que se sente o coração tão vivo dentro do peito. Hoje, ao invés de assistir o Datena, você vai ficar escolhendo com muito carinho a roupa de amanhã, que tem que ser impecável.

 

O despertador toca....e em dois saltos você já está debaixo do chuveiro, se esfregando  com a lixa do pé para tirar aquelas bolinhas que até ontem não tinham a menor importância, mas hoje tem que ficar com uma pele de dar inveja num pêssego. Desconsiderando o vermelhão que pode ser atenuado com um creme qualquer, todos os detalhes são conferidos umas cem vezes. E foi na hora do almoço....você se estica para pegar o refrigerante e um braço, paralelo ao seu, roça levemente sua pele. Ah! Só quem já viveu isso é que sabe: não tem como disfarçar. Seu corpo é o seu maior delator....a respiração ofegante, os pelos arrepiados, fora aqueles que ficam tão corados, que a melhor desculpa é dizer que o calor tem atacado a sua pressão ou em último caso, foi a lixa de pé, diz que fez um peeling...fica chique. A paquera é ano luz mais emocionante do que as vias de fato, propriamente ditas. Não há quem não se entregue á emoção de se sentir desejado em segredo. Um pacto compartilhado apenas pelos participantes do jogo, um jogo de gato e rato: o rato foge do gato, mas deixa sempre o rabinho estrategicamente visível, para que o gato o encontre...aí o gato foge, e deixa lá, metade do corpo pra fora do armário, e o rato encontra ele....e assim vai. Onde isso vai dar, todo mundo já sabe, mas a delícia deste jogo é que faz com que tudo tome outra vida. Acordar pela manhã é sempre o prenuncio de uma nova jogada: um toque de braço, um olhar de canto, um leve sorriso, ou apenas apertados dentro do elevador. Tem os mais atrevidos: um bilhetinho, um mimo deixado em cima da mesa, um e-mail incógnito...um beijo no rosto. Uma sensação maravilhosa, principalmente porque é perdoável: afinal, ninguém está fazendo nada de errado. Nada aconteceu além de olhares, palavras sutis e beijos inocentes.

 

É no mínimo saudável, pois não existe remédio, nem plástica que te faça rejuvenescer tão rapidamente do que uma paquera. Não conheço até hoje quem não se entregou a devaneios no meio de uma reunião, lembrando daquele olhar. Lembra do início da história? Pois é.....eu ainda prefiro um filhote de cabrito no meio do peito, me faltar o ar...do que encher a cara ao som de Maysa. A alma agradece.

Vera Abdalla

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CHEGOU O FIM DO ANO!  escrito em quinta 17 dezembro 2009 19:39

Ah, que delícia!!!! Chegou o fim do ano! Presentes, festas, muitos beijos, abraços! A família já está em ritmo de forno e fogão. Cada uma quer caprichar mais que a outra e lógico que todo mundo sai ganhando nesta, inclusive muitos quilos. Nas empresas é confraternização disso, comemoração daquilo, as festinhas dos departamentos, amigo secreto.....Amigo secreto! Tem coisa melhor que Amigo Secreto? Tem....lógico que tem....mas é no mínimo divertidíssimo. Já começa na hora do sorteio: o sujeito vai abrindo o papelzinho bem devagar e olha com um olho só....e fica indisfarçável a cara que ele faz quando o sorteado, por obra do destino, é um desafeto seu. Evidente que o moderador quer mais é ver o circo pegar fogo e por mais que o outro implore ele argumenta que  são as regras do jogo, que não pode trocar, sabe como é que é.....morrendo de rir, com certeza. E aí se inicia uma pesquisa tão intensa quanto se descobrir a verdadeira teoria do desfecho da Era Glacial.  Como saber o que o meu amigo secreto vai querer? Por que será que depois de tanto trabalho, normalmente ninguém acerta? Lembram daquela mesma cara ao abrir o papelzinho? É a mesma quando abre o presente. Mas nem dá muito tempo de se decepcionar, porque no segundo seguinte, já tem um com a máquina fotográfica em riste e o pobre infeliz tem que armar um baita dum sorriso pra sair na foto, que no dia seguinte já está no Orkut. Presentes trocados, beijos estalados, mil tapinhas.....vamos à cerveja, porque a razão maior de se estar aqui é esta! Tudo começa muito bem: uma rodinha aqui e ali, todo mundo na aguinha, no guaraná. Aí um já pede uma caipirinha, mas é pra dividir.....a segunda não!  A terceira já vem com chorinho, a quarta chupa até o limão. O primeiro copo de cerveja é com charme, chega a esquentar na mão....os próximos já se troca o copo pela metade., porque não tem graça cerveja morna. Temos grupos distintos: dos homens a fins das mulheres, principalmente aquela gostosa que ninguém sabe qual é a dela, das mulheres a fins dos homens e os fofoqueiros de plantão, que passam a festa inteira anotando os detalhes mais sórdidos, para no dia seguinte serem comentados já no café da manhã, no café das 10, na hora do almoço, no cigarrinho da tarde, na saída. Haja assunto! E a festa vai acontecendo....lembram da cervejinha....da caipirinha? Então, depois de muitas destas, alguém não resiste à uma demonstração de como eram legais os tempos da brilhantina, e se atira no meio do salão. É a deixa! Dos Bee Gees para a Boquinha da Garrafa é um pulo, em cenas explícitas, entenda-se! Tem aquele que quer sempre mostrar o quanto ele é simpático e agradável e te puxa pra dançar um samba de gafieira, justo você que não consegue dançar nem o vira, de repente se vê igual a uma Nega Maluca, jogada de lá pra cá e o cara se achando. O duro é você se livrar dele depois. Depois deste passo-doublé ele com certeza vai achar que você está na dele, mas vai achar meeeesmo! Livrar-se dele é digno de um reality Survivol. Também tem aquela que tudo mundo sabe que é, mas ela nega sobre a Bíblia, até a terceira latinha de cerveja. Aí ela mostra mesmo pra que que veio a este mundo! E ai de quem fizer algum comentário no dia seguinte....se sente ofendida, não se conforma, fica uma semana sem olhar para a cara de ninguém. No fim da noite, ainda temos a seção de declarações etílicas, um apoiado no outro, jurando se defenderem mutuamente daquele gerente esquizofrênico, até o fim de seus dias.....uma cena emocionante, normalmente chegam ás lágrimas.

 

No dia seguinte, é o frisson para todo mundo comentar a festa, quase ninguém trabalha, porque tem que contar a mesma história umas 40 vezes, lógico que lá no fim o fato inicial já deixou de ser verdade há tempos! E haja orelha quente! Mas tudo bem! É fim de ano, todo mundo sai de férias e na volta ninguém nem se lembra mais do que passou, na verdade tem muitos que nem no dia seguinte lembram. O importante é que mais um ano vai passar e outras festas virão....e no fim, tudo estará em paz, como deve ser, entres os povos de boa vontade.

 

 

Vera Abdalla

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QUEM CUIDA DE NÓS?  escrito em segunda 23 novembro 2009 18:55

Foi num minuto....bastou um minuto para meu primo cair na piscina, bater a cabeça e ficar tetraplégico. Foi num minuto que o outro teve um derrame e ficou mais de cinco meses em fisioterapia, até ter o outro. Daí, ficou se arrastando mesmo. Um minuto, e alguém fica na cadeira de rodas pelo resto da vida, ou quem sabe, vegetando. Foi neste espaço de tempo, com três ou quatro palavras que o médico me disse que meu marido tinha um câncer se espalhando do intestino até o pulmão. Foram promessas, novenas, terços, romarias sem fim. Noites sem dormir, remédios na hora certa e fora o período da quimio, que tinha que sair correndo com ele para o banheiro. Sete anos se passaram, entre indas e vindas de hospital, diversas cirurgias, complicações. Hoje ele está bem.  Me lembro das pessoas em volta....as expressões eram sempre de pura compaixão, coitado dele, palavras de incentivo, tudo aquilo que se faz para levantar o ânimo de quem está doente. Minha prima ficou dias e dias sem dormir, não comia, ficava sentada numa cadeira de madeira na porta da UTI. Até o filho morrer. A outra foram romarias infindas para o hospital com o marido acometido pelo AVC, a hora do remédio, a mãe dela doente e fora ter que cuidar da casa e trabalhar. Eu fiquei meses com meu marido dentro do hospital, dormindo num sofá e acordando cedo para ir trabalhar. Acordava todo instante para conferir o soro, para ajuda-lo ir ao banheiro, para fazer massagens pois ele não agüentava mais ficar numa só posição. Quando ele veio para casa, era um subir e descer de escadas,  o remédio, a almofada, a pomada, ajeita aqui, arruma ali. Leva pro médico, traz do médico. Notícias boas, notícias ruins.....

Um dia, tomei o ônibus para vir trabalhar e quase desmaiei. Foi quando me dei conta do quanto eu estava acabada com tudo isso. Nunca nos perguntam isso.  Uma colega de trabalho está com a mãe doente....muito doente. Sempre perguntam a ela como está a mãe dela...nunca como ela está. Como ela está enfrentando tudo isso. Se ela dorme bem, come bem....se ela chora escondida, se ela se revolta, se ela tem forças. Nunca perguntaram, nem a ela, nem a mim, nem a minha prima....ninguém. Será que imaginam que existem momentos que nos sentimos tão fracos que chegamos a invejar o paciente? Pelo menos ele está ali, sendo amparado, cuidado, mimado...e a gente aqui....querendo um colo pra se aninhar e chorar...só um pouquinho. Mas não tem colo, e todo mundo espera cada vez sempre mais de você. Vi muitas pessoas perguntarem se eu precisava de alguma coisa, mas a oferta vinha acompanhada de uma expressão indisfarçável de agonia....( Deus permita que ela diga não!). O corpo dói, as olheiras são cada vez mais visíveis, a gente dorme em pé. Depois vem a depressão.....e a gente quer se enfiar embaixo da cama e ficar lá por uma semana inteira. Mas não pode!!!!! Tem que ir lá, dar o remédio na hora certa. Fazer a janta, ver se o cachorro tem comida e botar a roupa pra lavar.

Isso acontece....ninguém pede para ficar doente, temos que cuidar deles...mas, quem cuida de nós? Quem nos dá as forças que encontramos todos os dias pelas manhãs? Quem nos deixa dormir um pouquinho mais para recuperar as energias? Quem nos traz um prato de sopa quente? Você está com câncer! Muitas pessoas sabem o que é ouvir isso! Mas imaginam o que é uma mãe ouvir que seu filho está com câncer? Ou o filho ouvir este diagnóstico para o pai? Quem corre para nos acudir?

Não somos fortes....somos sobreviventes, porque a nossa dor não está no corte exposto. Nossos doentes não vem nossas lágrimas e para as pessoas em volta, estamos sempre de pé. Mas dói....dói tanto.....dar a notícia ao seu filho que o pai dele não vai voltar para casa.....e você ter que segurar a dor dele. Falar para o neto, que a avó dele talvez não volte mais a brincar com ele como antes e ele não se conformar com isso....e voce precisa buscar as palavras certas para explicar tudo isso.

As respostas eu mesma me dei.....os caminhos fui eu quem segui...lambi minhas feridas e continuei sempre sorrindo. Ninguém cuidou de mim, mas bem que eu quis e digo que se devia pensar nisso....da próxima vez, quando encontrar alguém vivenciando esta terrível experiência de ter alguém na família morrendo aos poucos....pergunte: Como VOCE está? Só isso....

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JUSCELINO CARDOSO  escrito em quinta 01 outubro 2009 16:13

Eu trabalhava numa empresa onde o horário de entrada era muito cedo, e isso me obrigava a sair de madrugada de casa, tomar vários ônibus e chegar ao meu destino ainda amanhecendo. Eu descia do ônibus bem em frente á uma avícola e quase sempre era a hora em que a loja estava abrindo. Muitas vezes eu saía resmungando por causa do cheiro que vinha da loja, logo cedo, ainda em jejum, era insuportável. Numa destas manhãs, quando a porta de aço da loja foi levantada, bem na minha frente havia uma gaiola de hamster, destas pequenas, com um cachorrinho, filhote, todo encolhido dentro dela. Me aproximei da gaiola e o cachorrinho já veio fazendo festa, foi ali que ele ganhou meu coração. Perguntei para o dono da loja se ele estava á venda, ou era para doação, e ele me respondeu que estava vendendo,  porque o cachorro era um pincher legítimo. Não seria preciso ser nenhuma expert em animais para ver que a raça tinha passado por ele numa quinta geração passada, mas enfim, ele mantinha muitas características, mas daí a ser uma raça pura, tinha uma distância muito grande. Fui trabalhar pensando no cachorrinho. Na hora de ir embora, antes de pegar meu ônibus, passei pela loja e fiz mais uma festinha com ele. Cheguei em casa e não parei de falar no bichinho. Nos dias que se passaram, se tornou uma rotina esperar a loja abrir, passar por lá na hora do almoço e depois quando eu ia embora. E iniciei minha campanha de convencimento ao dono da loja de que ele ia acabar me vendendo o cachorro. Fiz ofertas, contra ofertas, propostas indecentes e ele não cedia no valor. Eu ia embora com o coração apertado, rezando para que ninguém comprasse o bichinho. Depois de uns 20 dias, houve uma mudança absurda de temperatura e quando eu chegava para trabalhar o frio entrava nos ossos...e o cachorrinho, lá na gaiola, sem nem um jornal para se proteger. Pedi ao dono que pusesse pelo menos uma caixinha, para que o filhote pudesse se proteger do frio. Voltei na hora do almoço e ele havia me atendido, mas ainda não era o bastante. A posição da gaiola, exposta bem na frente da loja, permitia que o vento entrasse por tudo quanto era lado, e aquilo me deixava angustiada. Naquela noite não dormi....fazia tanto frio, eu dormindo com cobertor, manta e pensando no cachorrinho, naquela gaiola, só com aquela caixinha. Minha última investida seria ameaçá-lo de maus tratos. Cheguei no dia seguinte e já fui abrindo o jogo: ou ele me vendia o cachorro ou eu iria denunciá-lo por estar vendendo um cachorro dentro de uma avícola, sem o menor cuidado necessário. Ele me respondeu que não estava se negando a me vender, que eu é que não queria pagar o preço dele. Acabamos discutindo! Eu dizia que o animal não valia o que ele estava pedindo e ele dizia que o cachorro era dele e que ele vendia pelo preço que quisesse. No meio desta discussão, surgiu do fundo da loja um senhor de cabelos brancos e aparência bem idosa e ouvindo o nosso bate boca veio ver o que estava acontecendo. Ele era o pai do dono da loja e neste momento, cheio de autoridade, ele se voltou para o filho e ordenou para que ele enfim concordasse comigo, pois ele não agüentava mais me ver na loja dele. Um calor de vitória tomou conta do meu corpo! Eu havia conseguido! Mas o homem não cedeu....e praticamente me expulsou de lá. Na porta da loja eu me voltei para ele e ainda lancei de um último recurso: no dia seguinte eu iria voltar para ver o cachorrinho, só que desta vez, junto com a polícia. No escritório e em casa ninguém mais agüentava me ouvir falar sobre o bichinho.  Mais uma noite sem dormir. Eu pensava no frio que ele estava passando, que ele era ainda um filhotinho, que deveria ter sido tirado antes do tempo da mãe, e chorava. No dia seguinte, a loja nem tinha aberto  eu já estava lá, pronta para o meu ataque derradeiro. O homem levantou a porta de ferro e deu de cara comigo, enfurecida e o cachorrinho latindo de alegria ao me ver. Como quem protege o próprio filho fui conferir como estava o pequeno “pincher”, e ele lógico, fazendo a maior farra. O dono da loja já começou a esbravejar e eu totalmente alheia a ele, trocava grunhidos amorosos com o pequeno. Com um olhar carregado de desprezo, me voltei para o homem e desferi minha ameaça: ou ele me vendia o cachorrinho, ou eu iria sair dali e denúncia –lo  por maus tratos, ia na imprensa, ia nos jornais, resumindo: ia fazer um escândalo. O homem ficou me olhando fixamente, num misto de ódio e surpresa. Depois, respirou bem fundo, pegou um molho de chaves no bolso e destravou o cadeado que prendia a portinha da gaiola. Temendo que no minuto seguinte ele se arrependesse de seu ato, arranquei o cachorrinho de lá de dentro e o segurei bem forte contra o peito, enquanto ele me lambia freneticamente o rosto. Ele ainda insistiu no valor inicial, mas fui taxativa de que pagaria somente os gastos que ele havia tido com vacina e ração, pois tinha sido isso apenas o que ele tinha feito por aquele animal. Para não passar por megera, ainda comprei uma ração para levar para casa, uma coleirinha, uma caminha e mais alguns brinquedinhos. Saí da loja com o coração radiante! A expressão do pequeno era digna de ser filmada: ele ia na palma da minha mão, olhando para todos, como se fosse a coisinha mais importante deste mundo. Chegou até rosnar para duas garotas que vieram fazer uma festinha pra ele, coisa que eu nunca tinha visto ele fazer. Me senti feliz! Ele sabia que agora éramos um dono do outro. Tive que pedir uma carona até um local próximo de casa e depois peguei um táxi. Já estava computando os prejuízos.....Em casa eu já tinha um boxer de 1 ano de idade e uma gata de 5 anos, cada qual em seu espaço, vivendo em plena tranqüilidade. Abri a porta de casa e soltei o cachorrinho para que ele fizesse seu reconhecimento, que durou apenas alguns minutos, pois ele parecia que queria cheirar a casa inteira em segundos.Juscelino Cardoso. Foi este o nome que o meu filho deu para ele, que evidentemente se transformou em Juca. Quando comprei meu boxer, ele tinha 45 dias, e assim que foi para casa, acostumamos ele a dormir na cozinha, na sua cama. Era uma choradeira sem fim. Ficávamos acordando e nos revezando para fazê-lo dormir novamente, senão a casa inteira ficava acordada. O Juca, no primeiro dia, já foi dormir na cama com a gente. Tudo tinha uma explicação: porque era pequeno, porque devia estar traumatizado, porque o pelo era curto e sentia frio. Como coisa que o boxer não sentisse nada disso. Em menos de um mês ele já era o rei da casa, dava as ordens, comia antes de todos, dormia no sofá, mordomia era com ele mesmo.

 Por ser pequeno, ele conseguia passar pelas grades do portão da frente e volta e meia tínhamos de buscá-lo no bar da esquina, onde sempre alguém lhe oferecia um churrasquinho, e evidente que ele se tornou freguês. Sair com ele na coleira contribui muito para que nos tornássemos as pessoas mais populares do bairro, pois ele latia tanto, fazia tanto estardalhaço, que todo mundo já sabia que lá vinha o Juca, o oposto do boxer, Thobias, que sempre manteve o seu comportamento sereno e tranqüilo. Juscelino Cardoso se tornou o moleque da casa. Ciumento ao extremo, nunca permitiu que qualquer um recebesse mais carinho do que ele. Mimado, dengoso, dono de um olhar irresistível. 

Quando olhava para ele e o via dormindo tranqüilo no sofá, enroscado na perna de alguém, me sentia feliz por ter lutado por ele e ter-lhe oferecido uma vida melhor. E ele me agradeceu em cada lambida, nas festinhas que fazia quando eu chegava em casa, quando me exigia um minuto de minha atenção. Latia tanto que a gente chegava a implorar para que ele parasse. Foi amor á primeira vista e não poderia ter sido diferente, ele sabia cativar qualquer pessoa. Contar a história dele era algo que eu precisava fazer, a história deste pequeno cachorrinho, chamado Juscelino Cardoso, nosso molequinho.

 Neste fim semana, ele foi dar sua voltinha costumeira pela rua, com seu amigo, um viralatão dos pelos crespos...e foi a última vez. A mulher que os atropelou nem parou o carro...Todos os vizinhos se manifestaram com muita revolta, pois não havia quem não o conhecesse. Que cena triste: meu marido com ele nos braços, sem vida....que dor!

 Ficou agora um grande silencio...uma saudade imensa....Eu acredito que o tempo há de corrigir tudo isso, mas por enquanto, a lembrança dele, só nos traz lágrimas. Nosso pequeno marcou nossas vidas com a sua alegria excessiva e agora, apesar de sabermos que tudo faz parte de um ciclo, queremos voltar a sorrir.....Como diz meu filho: Juca, vc foi o cara!!!!!!!!

Vera Abdalla

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SOU MAIS MACHO QUE MUITO HOMEM!  escrito em segunda 21 setembro 2009 20:14

Eu me lembro de ter mais ou menos uns 4 anos de idade. Morava numa fazenda um Jaguariúna e mesmo sendo da família, não desfrutava de nenhuma regalia. Ainda noite, o filho do capataz batia na minha janela e com resmungo ou sem, lá ia eu, com meu capote de lã e galochas, pasto afora, buscar os cavalos. O menino tinha uns 9 anos e somente nós dois trazíamos a manada toda para a cocheira. Neste meio tempo as mulheres já tinham levantado e ordenhavam as vacas. Os tambores eram cheios de leite e outro empregado ia distribuir na cidade. Só então íamos tomar café. Depois disso, cada um tinha a sua atividade: uns cuidavam da horta, outros do café, para mim, daquele tamanho, cabia cuidar dos animais. Uma coisa miúda, de 4 anos, espremendo berne em boi, fazendo curativo nos porquinhos recém nascidos, tomando cabeçada de carneiros, chifradas de vacas. Algumas vezes ia parar no hospital em conseqüência de alguma surra que levava....do galo....do bode....da mula. Cresci e vim pra cidade. Fui estudar e mal terminando o segundo grau comecei a trabalhar e nunca mais parei. Eu sempre falo, meus empregos eram escolhidos a dedo: ou eu trabalhava feito uma cachorra, fazia hora extra até meia noite e no dia seguinte estava lá ás 7 da manhã.....ou era trabalho braçal. Eu sempre fui tão á vontade com os colegas de serviço, que ás vezes penso que esqueciam que eu era mulher....me punham pra carregar, arrastar, empurrar....E mais os 3 onibus pra ir e os 3 prá voltar....Trabalhei numa empresa, eu já tinha uns 35 anos, o cansaço era tanto que eu preferia ás vezes nem almoçar....me jogava na grama que circundava a fábrica e dormia ali mesmo, debaixo do sol a pino....chegava a babar. Sonhava com um emprego num escritório bem bonito, uma sala só pra mim, trabalhar toda elegante, salto alto...Arrumei o tal emprego...trabalhava tanto, que tinha noites que eu descia do ônibus com os sapatos, aqueles do saltos enormes, na mão, porque não agüentava um passo a mais. E além de tudo, ainda tinha meus filhos pequenos, um sogro doente e mais um zilhão de responsabilidades.

 

E minha vida sempre foi uma falta de opção. Não tinha muito que escolher não....era aquilo ali e estava bom demais. Mas eu sempre fui em frente. Sempre tive um caminho a seguir, uma meta, um sonho. Quebrei a cara umas quinhentas vezes, algumas vezes todo mundo ficava sabendo, outras só eu mesma. Não sei o que era pior: a vergonha de expor meu fracasso publicamente ou chorar noites e noites sem ninguém pra te consolar. Mas fui em frente. Criei meus filhos, cuidei de meu sogro, cuidei do meu marido, o primeiro morreu depois de cinco anos como paciente diálico, o segundo são sete anos de romaria pelos hospitais, cirurgias e quimioterapia. Entre um e outro, eu tive um câncer. Não tive muito tempo para pensar nele não....eu ainda estava com os pontos da cirurgia que fiz para tirar o útero, tive que sair correndo para acudir meu sogro, que enfiou o carro num poste. Eu deixava as crianças na escola, ia trabalhar, voltava e quantas vezes tinha a grata surpresa de saber que a minha empregada tinha ido embora no meio da tarde, deixando a casa de pernas pro ar, a roupa toda pra lavar, porque tinha levado uns xingos do meu sogro. Um homem não imagina o que é isso...não passam nem perto...Morrer naquele instante, é uma dádiva divina. O pior é que não morria...nem desmaiava ( os céus podiam ser um pouco mais generosos).

Mas eu fui em frente! E cheguei onde cheguei! Assim que desperto coloco em prática meus conhecimentos absolutos de Administração: cronômetro meu tempo no banho e logo em seguida já acordo minha filha, que vai despertando enquanto acordo meu marido. Enquanto ele toma banho, eu já vou me trocando e continuo chamando por ela. Isso, vamos entender, é correndo de um quarto para o outro. Quando escuto ele desligar o chuveiro, corro para a cozinha e em tres movimentos eu coloco a água para o café, ponho a ração da gata e estendo  toalha na mesa. Quando termino de arrumar o café, impreterivelmente, meu marido já desponta na porta da cozinha. Quando entramos no carro, eu vou treinando duas grandes especialidades: malabarismo e meditação zen budista. A primeira para ir me maquiando no espaço de tempo que levamos da minha casa até a porta do escritório. A segunda é para conseguir me maquiar com meu marido na direção e tentar não matá-lo. Durante o expediente eu faço um grande treinamento em Gestão de Pessoas. São 400 pessoas, cada uma diferente da outra, cada uma com seu comportamento individual, com sua forma de viver e de ver.....e falar. O sucesso é se conseguir conviver muito bem com todos.  Neste ínterim é necessário colocar em prática todas rotinas gerenciais adquiridas ao longo dos anos. Na volta para casa, um pouco mais de auto-ajuda, para ignorar a dor nos pés, nas costas, na cabeça...e aí, com toda paciência necessária, habilita-se o seu lado psicoterapeuta para poder ouvir um rosario de queixas de seu marido, porque segundo ele, eu nem imagino o dia que ele teve! Enquanto ele fala sem parar, já vou incorporando a Ana Maria Braga e vou decidindo o cardápio da janta. Tem homem que pensa que a gente carrega uma enciclopédia gastronômica no lugar do cérebro. Todos os dias temos na ponta da língua o que vamos preparar na entrada, como salada, prato principal e sobremesa. Chegando em casa, ligo o cronômetro de novo: tenho que brincar com dois cachorros e a gata, perguntar e ouvir a resposta de minha filha de como foi o dia dela, saber da minha empregada o que aconteceu em casa, quem ligou, quem deixou recado, trocar de roupa, dar dois profundos suspiros e correr para a cozinha. Depois da janta, já que vou ficar sentada no sofá assistindo a novela, não custa nada dar um show nas minhas habilidades em técnicas orientais, com especialização em shiatsu, pois meu marido está todas as noites “ morrendo de dor nos pés!”. E por fim, terminada a novela, penso em ir dormir, afinal no dia seguinte tenho mais um tanto deste para enfrentar....mas aí vem aquela parte de por em pratica seus conhecimentos teóricos do Kama Sutra. Ah! Finalmente....vou dormir! Isso quando está tudo calmo, porque vai que um dos filhos avisa que vai chegar tal hora e não chega, e aquele bendito celular cai sempre na caixa postal....aí, bom....aí a gente fica sem dormir mesmo e no dia seguinte começa tudo de novo.

 

Resumindo: eu ouvi num dia destes, um homem....é...um homem...explanando suas próprias opiniões a respeito das mulheres, de maneira bem preconceituosa, chauvinista e porque não dizer, muito mal informado a respeito do universo feminino. Eu nunca quis ser superior aos homens, mas já que a vida me conduziu assim, assim eu fui indo, sem a menor pretensão de criar alguma guerra dos sexos. Cá entre nós, não ia ser nada mal chegar em casa e encontrar a janta pronta, sentar em frente a televisão e abrir uma cervejinha. E ainda dar bronca se alguém te atrapalhar na hora do noticiário. Nada mal mesmo....mas uma coisa eu garanto, para qualquer um que me questionar: já dizia Rita Lee....sou mais macho que muito homem!!!!!!!! Em cima do salto czarina, sou macho pra valer, porque trazer na raça um dia destes não é pra qualquer um não e fazer destes dias uma vida...aí então, é prá tirar o chapéu.  Entendeu, meu senhor? E agora me dá licença.....que vou á luta!!!!!!

 

Vera Abdalla

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