O despertador toca....você abre um olho....abre o outro....ameaça mais um cochilo, depois pensa na vida. Normalmente este “ pensar na vida”, quando se refere ás mulheres, significa: que roupa eu vou por? Como esta decisão pode demorar algum tempo, melhor é ir tomando banho enquanto isso. Como um ser desprovido de ossos, você escorre pela cama e se arrasta até o banheiro. O Ministério da Saúde adverte: não se olhe de repente no espelho ao acordar, as seqüelas poderão ser irreparáveis. O banho é por obrigação.....lava o pescoço, atrás da orelha ( isso já é trauma de infância), o pé, a .....o .......pronto! Tá bom demais! Aí vem aquele momento de longa e interminável meditação em frente ao armário. Olha, olha,olha...e nada. No fim pega a primeira coisa que vê na frente. No carro, com o cérebro ainda entorpecido, qualquer noticiário sanguinolento serve, afinal voce nem está ouvindo direito. O dia se arrasta entre um suspiro e outro, telefonemas enfadonhos e minutas arquivadas. De noite, em casa, nada mais resta a não ser assistir pela vigésima vez A Lagoa Azul, tomar um calmante e ir dormir. E no dia seguinte....tudo igual....a não ser pelo fato de um olhar cruzar com o seu no meio do corredor. A gente chega a duvidar; será que foi isso mesmo? Foi comigo? Melhor ficar na minha....Pelo sim, pelo não, melhor eu ir beber água mais vezes....aí sim! Se acontecer de novo....E dito e feito! No momento em que você está pegando um café, do seu lado uma voz lhe dá uma boa tarde. E de novo os olhares se encontram. Ah! Que coisa maravilhosa é isso! Lembra daquele sono insuportável que lhe acomete depois do almoço? Pois ele acabou de sumir..... Segundo passo é dar uma corridinha no banheiro e conferir o conjunto. Até então o cabelo mais parecia um sheep dog, agora tem que estar perfeito....tira a remela....confere o bafo....( argh...ânsia...), ajeita, puxa, estica, encolhe ( Caramba! De onde apareceu esta ruga?). O dia cria cores em néon, qualquer bobagem é motivos de risos, só falta mesmo uma trilha sonora, numa linha Michael Bubblé. O som do carro agora é no último, só superado pela sua interpretação esganiçada.....mas não tem importância, você está pouco se lixando para quem torcer o nariz, afinal, não é todo dia que se sente o coração tão vivo dentro do peito. Hoje, ao invés de assistir o Datena, você vai ficar escolhendo com muito carinho a roupa de amanhã, que tem que ser impecável.
O despertador toca....e em dois saltos você já está debaixo do chuveiro, se esfregando com a lixa do pé para tirar aquelas bolinhas que até ontem não tinham a menor importância, mas hoje tem que ficar com uma pele de dar inveja num pêssego. Desconsiderando o vermelhão que pode ser atenuado com um creme qualquer, todos os detalhes são conferidos umas cem vezes. E foi na hora do almoço....você se estica para pegar o refrigerante e um braço, paralelo ao seu, roça levemente sua pele. Ah! Só quem já viveu isso é que sabe: não tem como disfarçar. Seu corpo é o seu maior delator....a respiração ofegante, os pelos arrepiados, fora aqueles que ficam tão corados, que a melhor desculpa é dizer que o calor tem atacado a sua pressão ou em último caso, foi a lixa de pé, diz que fez um peeling...fica chique. A paquera é ano luz mais emocionante do que as vias de fato, propriamente ditas. Não há quem não se entregue á emoção de se sentir desejado em segredo. Um pacto compartilhado apenas pelos participantes do jogo, um jogo de gato e rato: o rato foge do gato, mas deixa sempre o rabinho estrategicamente visível, para que o gato o encontre...aí o gato foge, e deixa lá, metade do corpo pra fora do armário, e o rato encontra ele....e assim vai. Onde isso vai dar, todo mundo já sabe, mas a delícia deste jogo é que faz com que tudo tome outra vida. Acordar pela manhã é sempre o prenuncio de uma nova jogada: um toque de braço, um olhar de canto, um leve sorriso, ou apenas apertados dentro do elevador. Tem os mais atrevidos: um bilhetinho, um mimo deixado em cima da mesa, um e-mail incógnito...um beijo no rosto. Uma sensação maravilhosa, principalmente porque é perdoável: afinal, ninguém está fazendo nada de errado. Nada aconteceu além de olhares, palavras sutis e beijos inocentes.
É no mínimo saudável, pois não existe remédio, nem plástica que te faça rejuvenescer tão rapidamente do que uma paquera. Não conheço até hoje quem não se entregou a devaneios no meio de uma reunião, lembrando daquele olhar. Lembra do início da história? Pois é.....eu ainda prefiro um filhote de cabrito no meio do peito, me faltar o ar...do que encher a cara ao som de Maysa. A alma agradece.
Vera Abdalla


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