HAJA CORAÇÃO!!!!!!!!

Blog de bocanotrombone :BOCA NO TROMBONE, HAJA CORAÇÃO!!!!!!!!

Detesto assistir jogo de futebol. Na verdade, odeio! Pode ser Crixaxá Sport Club contra Saraputinga do Norte, primeiro jogo do torneio de várzea, valendo um aparelho de VHS usado. Não assisto! Pra ser sincera, não assisto nada que esteja valendo alguma coisa , porque o meu espírito competitivo é muito mais forte que eu.....entende? ( by Pelé ! ). 

Nos primeiros 10 minutos, até que eu consigo assistir de maneira impávida, depois eu já formando a minha preferência, 20 minutos depois eu já virei a pessoa mais entendida deste assunto e acabo por concluir que aqueles 22 sujeitos no campo e mais aquele merdinha de preto deviam estar fazendo qualquer coisa na vida, menos jogando futebol. 

Isso tudo com estes times que eu citei.....quando a coisa já é Campeonato Brasileiro, Copa disso e daquilo aí não assisto mesmo! Fui Corintiana por muitos anos, dá pra sentir que fiz uma boa escola de como ser uma exímia maloqueira num campo de futebol.  Acontece que entrei numa família de Palmeirenses e antes que eu tivesse um ataque digno da Sexta Feira 13 - parte 20 em cima do meu marido, resolvi não torcer mais para time nenhum. Rá,rá,rá.  São só os primeiros 10 minutos. Depois disso eu consigo buscar expressões tão chulas para definir as preferências sexuais dos jogadores, que no dia seguinte os vizinhos me olham até de canto de olho.  

Ah.....mas quan-do tem a Co-pa.....! Aí a coisa destranbelha de vez. Primeiro a parafernália: chapéu, peruca espetada, camisa da seleção, bandeiras,pintura na cara....e não pode faltar aquele chaveirinho, aquele lá que naquele jogo, deu uma sorte danada. E agora temos as vuvuzelas!!!!!!! Benditas vuvuzelas! Meu cachorro faz três dias que não sai de debaixo da cama. Aí eu sento num canto do sofá, encolhida, de preferência sem ninguém por perto, porque também não quero ficar preocupada se o decibéis da minha garganta vão incomodar alguém e muito menos meu cheiro, porque à esta altura do campeonato, a diarréia já atacou feio. Aquele esmalte verde-amarelo foi desenvolvido para ser devorado na primeira meia hora de jogo. Na seqüência vem as cutículas e por fim que se dane que as unhas levaram 3 meses pra crescer, periga ficar em carne viva. E a bola roooooooooola no gramadoooooo!!!!!!!!!!!! ( primeiro peidinho....). O jogador adversário vem na direção da bola....é neste momento de eu incorporo o Exu Boca Podre: o bicho toma uma cachaça lascada, fuma que nem doido e cada xingo é uma babada. Se tiver alguém sentado na minha frente, com certeza vai sair com a nuca encharcada. Foi num destes jogos que perdi meu pivô do fundo e nunca mais achei, imaginem com que força saiu o xingo! No decorrer do jogo, eu desenvolvo uma capacidade acrobática que eu mesma desconheço ( deve ser coisa do Exu...): eu giro, me torço, subo no encosto do sofá ( encosto combina com Exu...), fico de costas, quero ver, não quero ver, olha só com o cantinho do olho......FAAAAAAAAAAALTAAAAAA!!!!!! A favooooooor do Brasiiiil! ( dois peidinhos....). Aí tem a mandinga de benzer o canto da televisão que tá o gol....fecha os olhos, faz duzentas cruzinhas com a mão, chama tudo quanto é santo de querido, amor, santo isso, santo aquilo.....ssssaaaaaaanto fi-lho-da-pu-taaaaaaaaa.....pra foraaaaaaaaaa!!!!!! Como é que aquele sujeito que ganha uma fortuna pra ficar chutando bola o dia inteiro, a vida inteira.....me chuta pra fora???? Existem momentos que a gente acha que se berrar, mais berrar mesmo, bem alto....eles lá no campo vão ouvir, né? É....a gente acha...e executa. Fim do primeiro tempo, momento pra tomar toda cerveja que encontrar pela frente, só que se esquece que tem mais 45 minutos pela frente e não dá pra parar o jogo. Já corri do banheiro fechando o zíper da calça por conta da falta cometida. Só me esqueci mesmo foi de parar de fazer xixi. GOL!!!! Gol!!!! Goooooooooooooooollllllll!!!!!!! Isso sim é que ser feliz!!!! E dá-lhe vuvuzelas!!!!! O cachorro está dentro do armário e a gata em cima, uma semana tudo traumatizado. Iki si foda o cachorro!!!! Só quero fazer muito barulho, muito mesmo.....eh caraca...esqueci da diarréia! Assoprar vuvuzelas não combina com diarréia. O segundo tempo é um sofrimento sem fim, porque além de se querer que o jogo termine no minuto seguinte ( a gente ta ganhando, lógico!), a garganta foi pro saco,a bexiga ta pra explodir e peidinhos, nem pensar! O juuuuuiiiiizzzzzz apiiiiiiiiiiitaaaaaaaaaaaa !!!!!!!! Ah, que maravilha!!!! Aí vale tudo, pode tudo...vâmo bebeê!!!!!! Vâmo bebê, purquê nestche momenchto eu achto que prechizo bebê mais uma, pra vê se a churrasquêra pára de ficar passando aqui na minha frenchte. 

Definitivamente...eu não consigo ter compostura num jogo de futebol. Mas em tempos de Copa, meu coração tem as cores do meu país e não dá para ser diferente! Vamos sofrer, vamos torcer e acreditar que ainda somos os melhores do mundo e vamos erguer a taça, com todo este orgulho que só esta raça tem! O orgulho de ser brasileiro! A garganta...depois a gente chupa umas balinhas...

Vera Abdalla

terça 08 junho 2010 10:42


FUI EU!!!!!

Blog de bocanotrombone :BOCA NO TROMBONE, FUI EU!!!!!

Ouvi uma frase outro dia que dizia o seguinte: " Quando não mais ficarmos chocados com as atrocidades humanas, é porque não somos mais humanos."

Eu percebo que com o passar do tempo eu deixei de me chocar. Neste momento, eu chego às raias da incredibilidade. Não existe mais o meio termo, agora nos dividimos em dois grupos: os dóceis e as feras. Não basta mais assaltar, é preciso matar. Não basta matar, é preciso torturar. Não basta torturar.....é preciso degolar, picar, queimar. Havia o conceito de que estas ações surgiam por uma condição de vida, falta de cultura, a vida dura acompanhada de um passado de maus tratos e uma família desestruturada. Mas agora tanto faz, tanto pode ser um pedreiro como uma médica, como um jornalista, não faz a menor diferença, a fera reside num lugar muito sombrio. Não existe uma razão específica, a vítima é escolhida ao acaso, é parente, é amiga, é estranha....não importa. E aí, eu fico pensando: de repente,num determinado momento, eu posso me deparar com uma desta feras.....e como irei reconhecê-lo? Alguém se lembra daquele filme " Os invasores de corpos"? Pois é....é assim. Você olha e não identifica que dentro daquela pessoa existe um ser pronto para explodir pela boca, olhos e ouvidos e se atirar em cima de você....e nem nenhum motivo absoluto, te reduzir a um monte de carne sem identidade. Eles são bonitos, são cultos, trabalhadores, boa família, podem se chamar Cadu ou Gabriela e os vizinhos dizem que sempre pessoas excelentes. Podem ser também de origem humilde, casados, com filhos, se chamam Ademar ou Jesus e na rua que eles moram, não tem um que tenha alguma coisa para falar dele. Mas a fera está lá. Ela mostra a sua cara e diz com todas as letras: Fui eu sim! O clã das bestas está instalado e faz questão de se expor para comprovar que acredita na sua força e no seu desejo de exterminar qualquer um que por um infeliz infortúnio cruzou seu caminho.

Já ouvi algumas pessoas dizerem que é o fim dos tempos. É possível que sim....é possível....mas se assim for, então seremos dizimados? Aquilo que víamos nos filmes, da terra se abrindo, vulcões explodindo, mares revoltos e a humanidade se devorando não fica hoje muito longe de uma inevitável perspectiva? Mas e aquele papo de que o bem sempre vence....? Também era só para enfeitar o fim do filme?

Vi um pequeno vídeo recentemente, onde os leões arrancam do meio da manada de búfalos um filhote e o arrastam para a beira do rio, uns dez em cima do pobre bichinho e para completar o quadro, ainda sai das águas um crocodilo querendo disputar uma parte da caça. Enquanto leões e crocodilo disputam arduamente quem vai ficar com o lanchinho, a mãe e o resto da manada, passado o susto, numa atitude impar se organizam e partem para cima do grupo, dispostos a salvar o filhote. E conseguem!!!!!

Porque não podemos fazer o mesmo? A revolta dos dóceis contra as feras...defendendo suas crias, suas vidas, seu sustento. Fazê-los recuar e voltar ao escuro do ventre de onde nunca deveriam ter saído, palavras de Chico Buarque. As feras.....me assustam....mas ainda somos a maioria, podemos sim reverter tudo isso. Eu gostaria de vê-los em suas jaulas e quando indagarem como é que eles foram parar lá, ter o prazer de dizer-lhes, com o mesmo sorriso, com a mesma indiferença: Fui eu! 

Vera Abdalla

sexta 23 abril 2010 15:24


UM SIMPLES OLHAR....

Blog de bocanotrombone :BOCA NO TROMBONE, UM SIMPLES OLHAR....

O despertador toca....você abre um olho....abre o outro....ameaça mais um cochilo, depois pensa na vida. Normalmente este “ pensar na vida”, quando se refere ás mulheres, significa: que roupa eu vou por? Como esta decisão pode demorar algum tempo, melhor é ir tomando banho enquanto isso. Como um ser desprovido de ossos, você escorre pela cama e se arrasta até o banheiro. O Ministério da Saúde adverte: não se olhe de repente no espelho ao acordar, as seqüelas poderão ser irreparáveis. O banho é por obrigação.....lava o pescoço, atrás da orelha ( isso já é trauma de infância), o pé, a .....o .......pronto! Tá bom demais! Aí vem aquele momento de longa e interminável meditação em frente ao armário. Olha, olha,olha...e nada. No fim pega a primeira coisa que vê na frente. No carro, com o cérebro ainda entorpecido, qualquer noticiário sanguinolento serve, afinal voce nem está ouvindo direito. O dia se arrasta entre um suspiro e outro, telefonemas enfadonhos e minutas arquivadas. De noite, em casa, nada mais resta a não ser assistir pela vigésima vez A Lagoa Azul, tomar um calmante e ir dormir. E no dia seguinte....tudo igual....a não ser pelo fato de um olhar cruzar com o seu no meio do corredor. A gente chega a duvidar; será que foi isso mesmo? Foi comigo? Melhor ficar na minha....Pelo sim, pelo não, melhor eu ir beber água mais vezes....aí sim! Se acontecer de novo....E dito e feito! No momento em que você está pegando um café, do seu lado uma voz lhe dá uma boa tarde. E de novo os olhares se encontram. Ah! Que coisa maravilhosa é isso! Lembra daquele sono insuportável que lhe acomete depois do almoço? Pois ele acabou de sumir.....  Segundo passo é dar uma corridinha no banheiro e conferir o conjunto. Até então o cabelo mais parecia um sheep dog, agora tem que estar perfeito....tira a remela....confere o bafo....( argh...ânsia...), ajeita, puxa, estica, encolhe ( Caramba! De onde apareceu esta ruga?). O dia cria cores em néon, qualquer bobagem é motivos de risos, só falta mesmo uma trilha sonora, numa linha Michael Bubblé. O som do carro agora é no último, só superado pela sua interpretação esganiçada.....mas não tem importância, você está pouco se lixando para quem torcer o nariz, afinal, não é todo dia que se sente o coração tão vivo dentro do peito. Hoje, ao invés de assistir o Datena, você vai ficar escolhendo com muito carinho a roupa de amanhã, que tem que ser impecável.

 

O despertador toca....e em dois saltos você já está debaixo do chuveiro, se esfregando  com a lixa do pé para tirar aquelas bolinhas que até ontem não tinham a menor importância, mas hoje tem que ficar com uma pele de dar inveja num pêssego. Desconsiderando o vermelhão que pode ser atenuado com um creme qualquer, todos os detalhes são conferidos umas cem vezes. E foi na hora do almoço....você se estica para pegar o refrigerante e um braço, paralelo ao seu, roça levemente sua pele. Ah! Só quem já viveu isso é que sabe: não tem como disfarçar. Seu corpo é o seu maior delator....a respiração ofegante, os pelos arrepiados, fora aqueles que ficam tão corados, que a melhor desculpa é dizer que o calor tem atacado a sua pressão ou em último caso, foi a lixa de pé, diz que fez um peeling...fica chique. A paquera é ano luz mais emocionante do que as vias de fato, propriamente ditas. Não há quem não se entregue á emoção de se sentir desejado em segredo. Um pacto compartilhado apenas pelos participantes do jogo, um jogo de gato e rato: o rato foge do gato, mas deixa sempre o rabinho estrategicamente visível, para que o gato o encontre...aí o gato foge, e deixa lá, metade do corpo pra fora do armário, e o rato encontra ele....e assim vai. Onde isso vai dar, todo mundo já sabe, mas a delícia deste jogo é que faz com que tudo tome outra vida. Acordar pela manhã é sempre o prenuncio de uma nova jogada: um toque de braço, um olhar de canto, um leve sorriso, ou apenas apertados dentro do elevador. Tem os mais atrevidos: um bilhetinho, um mimo deixado em cima da mesa, um e-mail incógnito...um beijo no rosto. Uma sensação maravilhosa, principalmente porque é perdoável: afinal, ninguém está fazendo nada de errado. Nada aconteceu além de olhares, palavras sutis e beijos inocentes.

 

É no mínimo saudável, pois não existe remédio, nem plástica que te faça rejuvenescer tão rapidamente do que uma paquera. Não conheço até hoje quem não se entregou a devaneios no meio de uma reunião, lembrando daquele olhar. Lembra do início da história? Pois é.....eu ainda prefiro um filhote de cabrito no meio do peito, me faltar o ar...do que encher a cara ao som de Maysa. A alma agradece.

Vera Abdalla

terça 12 janeiro 2010 16:22


CHEGOU O FIM DO ANO!

Blog de bocanotrombone :BOCA NO TROMBONE, CHEGOU O FIM DO ANO!

Ah, que delícia!!!! Chegou o fim do ano! Presentes, festas, muitos beijos, abraços! A família já está em ritmo de forno e fogão. Cada uma quer caprichar mais que a outra e lógico que todo mundo sai ganhando nesta, inclusive muitos quilos. Nas empresas é confraternização disso, comemoração daquilo, as festinhas dos departamentos, amigo secreto.....Amigo secreto! Tem coisa melhor que Amigo Secreto? Tem....lógico que tem....mas é no mínimo divertidíssimo. Já começa na hora do sorteio: o sujeito vai abrindo o papelzinho bem devagar e olha com um olho só....e fica indisfarçável a cara que ele faz quando o sorteado, por obra do destino, é um desafeto seu. Evidente que o moderador quer mais é ver o circo pegar fogo e por mais que o outro implore ele argumenta que  são as regras do jogo, que não pode trocar, sabe como é que é.....morrendo de rir, com certeza. E aí se inicia uma pesquisa tão intensa quanto se descobrir a verdadeira teoria do desfecho da Era Glacial.  Como saber o que o meu amigo secreto vai querer? Por que será que depois de tanto trabalho, normalmente ninguém acerta? Lembram daquela mesma cara ao abrir o papelzinho? É a mesma quando abre o presente. Mas nem dá muito tempo de se decepcionar, porque no segundo seguinte, já tem um com a máquina fotográfica em riste e o pobre infeliz tem que armar um baita dum sorriso pra sair na foto, que no dia seguinte já está no Orkut. Presentes trocados, beijos estalados, mil tapinhas.....vamos à cerveja, porque a razão maior de se estar aqui é esta! Tudo começa muito bem: uma rodinha aqui e ali, todo mundo na aguinha, no guaraná. Aí um já pede uma caipirinha, mas é pra dividir.....a segunda não!  A terceira já vem com chorinho, a quarta chupa até o limão. O primeiro copo de cerveja é com charme, chega a esquentar na mão....os próximos já se troca o copo pela metade., porque não tem graça cerveja morna. Temos grupos distintos: dos homens a fins das mulheres, principalmente aquela gostosa que ninguém sabe qual é a dela, das mulheres a fins dos homens e os fofoqueiros de plantão, que passam a festa inteira anotando os detalhes mais sórdidos, para no dia seguinte serem comentados já no café da manhã, no café das 10, na hora do almoço, no cigarrinho da tarde, na saída. Haja assunto! E a festa vai acontecendo....lembram da cervejinha....da caipirinha? Então, depois de muitas destas, alguém não resiste à uma demonstração de como eram legais os tempos da brilhantina, e se atira no meio do salão. É a deixa! Dos Bee Gees para a Boquinha da Garrafa é um pulo, em cenas explícitas, entenda-se! Tem aquele que quer sempre mostrar o quanto ele é simpático e agradável e te puxa pra dançar um samba de gafieira, justo você que não consegue dançar nem o vira, de repente se vê igual a uma Nega Maluca, jogada de lá pra cá e o cara se achando. O duro é você se livrar dele depois. Depois deste passo-doublé ele com certeza vai achar que você está na dele, mas vai achar meeeesmo! Livrar-se dele é digno de um reality Survivol. Também tem aquela que tudo mundo sabe que é, mas ela nega sobre a Bíblia, até a terceira latinha de cerveja. Aí ela mostra mesmo pra que que veio a este mundo! E ai de quem fizer algum comentário no dia seguinte....se sente ofendida, não se conforma, fica uma semana sem olhar para a cara de ninguém. No fim da noite, ainda temos a seção de declarações etílicas, um apoiado no outro, jurando se defenderem mutuamente daquele gerente esquizofrênico, até o fim de seus dias.....uma cena emocionante, normalmente chegam ás lágrimas.

 

No dia seguinte, é o frisson para todo mundo comentar a festa, quase ninguém trabalha, porque tem que contar a mesma história umas 40 vezes, lógico que lá no fim o fato inicial já deixou de ser verdade há tempos! E haja orelha quente! Mas tudo bem! É fim de ano, todo mundo sai de férias e na volta ninguém nem se lembra mais do que passou, na verdade tem muitos que nem no dia seguinte lembram. O importante é que mais um ano vai passar e outras festas virão....e no fim, tudo estará em paz, como deve ser, entres os povos de boa vontade.

 

 

Vera Abdalla

quinta 17 dezembro 2009 16:39


QUEM CUIDA DE NÓS?

Blog de bocanotrombone :BOCA NO TROMBONE, QUEM CUIDA DE NÓS?

Foi num minuto....bastou um minuto para meu primo cair na piscina, bater a cabeça e ficar tetraplégico. Foi num minuto que o outro teve um derrame e ficou mais de cinco meses em fisioterapia, até ter o outro. Daí, ficou se arrastando mesmo. Um minuto, e alguém fica na cadeira de rodas pelo resto da vida, ou quem sabe, vegetando. Foi neste espaço de tempo, com três ou quatro palavras que o médico me disse que meu marido tinha um câncer se espalhando do intestino até o pulmão. Foram promessas, novenas, terços, romarias sem fim. Noites sem dormir, remédios na hora certa e fora o período da quimio, que tinha que sair correndo com ele para o banheiro. Sete anos se passaram, entre indas e vindas de hospital, diversas cirurgias, complicações. Hoje ele está bem.  Me lembro das pessoas em volta....as expressões eram sempre de pura compaixão, coitado dele, palavras de incentivo, tudo aquilo que se faz para levantar o ânimo de quem está doente. Minha prima ficou dias e dias sem dormir, não comia, ficava sentada numa cadeira de madeira na porta da UTI. Até o filho morrer. A outra foram romarias infindas para o hospital com o marido acometido pelo AVC, a hora do remédio, a mãe dela doente e fora ter que cuidar da casa e trabalhar. Eu fiquei meses com meu marido dentro do hospital, dormindo num sofá e acordando cedo para ir trabalhar. Acordava todo instante para conferir o soro, para ajuda-lo ir ao banheiro, para fazer massagens pois ele não agüentava mais ficar numa só posição. Quando ele veio para casa, era um subir e descer de escadas,  o remédio, a almofada, a pomada, ajeita aqui, arruma ali. Leva pro médico, traz do médico. Notícias boas, notícias ruins.....

Um dia, tomei o ônibus para vir trabalhar e quase desmaiei. Foi quando me dei conta do quanto eu estava acabada com tudo isso. Nunca nos perguntam isso.  Uma colega de trabalho está com a mãe doente....muito doente. Sempre perguntam a ela como está a mãe dela...nunca como ela está. Como ela está enfrentando tudo isso. Se ela dorme bem, come bem....se ela chora escondida, se ela se revolta, se ela tem forças. Nunca perguntaram, nem a ela, nem a mim, nem a minha prima....ninguém. Será que imaginam que existem momentos que nos sentimos tão fracos que chegamos a invejar o paciente? Pelo menos ele está ali, sendo amparado, cuidado, mimado...e a gente aqui....querendo um colo pra se aninhar e chorar...só um pouquinho. Mas não tem colo, e todo mundo espera cada vez sempre mais de você. Vi muitas pessoas perguntarem se eu precisava de alguma coisa, mas a oferta vinha acompanhada de uma expressão indisfarçável de agonia....( Deus permita que ela diga não!). O corpo dói, as olheiras são cada vez mais visíveis, a gente dorme em pé. Depois vem a depressão.....e a gente quer se enfiar embaixo da cama e ficar lá por uma semana inteira. Mas não pode!!!!! Tem que ir lá, dar o remédio na hora certa. Fazer a janta, ver se o cachorro tem comida e botar a roupa pra lavar.

Isso acontece....ninguém pede para ficar doente, temos que cuidar deles...mas, quem cuida de nós? Quem nos dá as forças que encontramos todos os dias pelas manhãs? Quem nos deixa dormir um pouquinho mais para recuperar as energias? Quem nos traz um prato de sopa quente? Você está com câncer! Muitas pessoas sabem o que é ouvir isso! Mas imaginam o que é uma mãe ouvir que seu filho está com câncer? Ou o filho ouvir este diagnóstico para o pai? Quem corre para nos acudir?

Não somos fortes....somos sobreviventes, porque a nossa dor não está no corte exposto. Nossos doentes não vem nossas lágrimas e para as pessoas em volta, estamos sempre de pé. Mas dói....dói tanto.....dar a notícia ao seu filho que o pai dele não vai voltar para casa.....e você ter que segurar a dor dele. Falar para o neto, que a avó dele talvez não volte mais a brincar com ele como antes e ele não se conformar com isso....e voce precisa buscar as palavras certas para explicar tudo isso.

As respostas eu mesma me dei.....os caminhos fui eu quem segui...lambi minhas feridas e continuei sempre sorrindo. Ninguém cuidou de mim, mas bem que eu quis e digo que se devia pensar nisso....da próxima vez, quando encontrar alguém vivenciando esta terrível experiência de ter alguém na família morrendo aos poucos....pergunte: Como VOCE está? Só isso....

segunda 23 novembro 2009 15:55


|

Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para bocanotrombone

Precisa estar conectado para adicionar bocanotrombone para os seus amigos

 
Criar um blog